Em Belém, ninguém marca encontro às três da tarde . Marca-se «depois da chuva ». Durante a maior parte da minha infância , achei que essa era uma expressão como outra qualquer , dessas que os adultos usam para não se comprometer . Só bem mais tarde , já morando em São Paulo, entendi que se tratava de um relógio — o mais pontual que a cidade jamais teve.
Minha avó Joana organizava a vida inteira em torno dele . Em chegando as duas horas , recolhia a roupa do varal , fechava as janelas que davam para a mangueira e punha a água do café no fogo . Não consultava o céu ; consultava o relógio da sala , que nunca a desmentia. A chuva vinha, grossa e breve , lavava as calçadas, e meia hora depois o sol voltava como quem nada fez. Aí , sim , minha avó saía para a rua .
Eu , aos dezenove anos , achava aquilo superstição de velha . Soubesse eu o que sei hoje , não teria passado uma das tardes mais humilhantes da minha vida . Fora marcada para as duas e meia a entrevista do meu primeiro emprego , numa agência de publicidade do Umarizal. Saí de casa às duas , de vestido novo e sapato de couro , convencida de que a chuva , em se tratando de uma ocasião tão importante , teria a delicadeza de esperar .
Não teve. Cheguei à agência encharcada, com o sapato em ruínas e o currículo transformado numa espécie de papel machê. A recepcionista, que me viu entrar pingando , ofereceu-me uma toalha com a naturalidade de quem já presenciara a cena centenas de vezes . O diretor , um senhor de bigode e gravata-borboleta, olhou para mim , olhou para a janela e disse apenas : «A senhorita não é daqui , é?». Contou-me depois a recepcionista ter ele contratado, naquela mesma semana , outra candidata — que chegara às três e quinze , seca e sorridente.
O ter sido reprovada por causa de uma nuvem me rendeu, durante anos , piadas em todos os almoços de família . Minha avó , a mais impiedosa, repetia a história para quem quisesse ouvir , sempre com a mesma moral : «Quem desdenha a chuva das duas acaba molhado às duas e meia .»
Volto hoje a Belém com frequência , quase sempre em julho , e a cada visita a cidade me parece um pouco diferente . A mangueira da casa da minha avó já não existe; no lugar dela , ergueu-se um prédio de quinze andares . E a chuva , aquela chuva com hora marcada , anda impontual . Há tardes em que ela chega às quatro ; há semanas em que simplesmente não vem, e o calor se instala sobre a cidade como um hóspede que esqueceu de ir embora . Os jornais falam em mudança climática , em desmatamento, em ilhas de calor ; os mais velhos dizem apenas que «o tempo está desregulado», o que , pensando bem , é dizer a mesma coisa com menos palavras .
Fosse outra a cidade , talvez ninguém sentisse falta de uma chuva . Mas , em Belém, perder a chuva das duas é perder um pouco da própria noção de tempo — nos dois sentidos da palavra . Quando a chuva atrasa, atrasam-se também o café , a roupa no varal , a conversa na calçada . A cidade inteira passa a esperar alguma coisa que não sabe se virá.
Ainda assim , mantenho o costume da minha avó . Marco os meus encontros «depois da chuva », mesmo nos dias em que o céu amanhece limpo . Os amigos de São Paulo acham graça ; os de Belém entendem sem que eu precise explicar . Não sei se a chuva voltará um dia a ser pontual . Sei, no entanto , que , enquanto houver alguém nesta cidade marcando hora com ela , as duas da tarde continuarão a ser um pouco sagradas.