Há quem reclame do trânsito de São Paulo. Eu , não . Depois de quinze anos atravessando a Marginal Pinheiros duas vezes por dia , cheguei à conclusão de que o engarrafamento é a maior invenção da civilização paulistana — mais útil que o metrô , mais democrática que o Carnaval e , sem dúvida , mais pontual que qualquer ônibus : todo dia , às seis da tarde , lá está ele , fiel como um cão .
Ultimamente ando desconfiando que o trânsito é, na verdade , um presente . Pense bem . Onde mais você teria duas horas inteiras só para si ? Em casa , há a louça , os filhos , o cachorro , a conta de luz . No escritório , há o chefe . No engarrafamento , não há nada além de você , do volante e dos seus pensamentos . Já resolvi ali , parada entre um caminhão de mudança e um ônibus fretado , mil problemas existenciais — e criei outros mil , para não perder o hábito . O trânsito ensina paciência ; a gente aprende, ou enlouquece. Na dúvida , eu aprendo.
Quem diria que a Marginal seria o lugar ideal para cantar ? No carro , ninguém me julga. Ou melhor : julga, mas eu não ouço. Ontem mesmo , soltei a voz num samba-enredo antigo com tanta convicção que o motorista do carro ao lado baixou o vidro e entrou no refrão . Ficamos amigos . Durante quarenta minutos , avançamos juntos , centímetro por centímetro , e ele me contou a vida inteira : o divórcio , a filha que estuda em Coimbra, a receita de feijoada da mãe . Quando a faixa dele finalmente andou, ele acenou e buzinou duas vezes , como quem se despede de uma velha conhecida . Nunca mais o vi. Que maravilha , a vida moderna : os laços mais sinceros duram o tempo de um congestionamento.
E há os sábios do rádio . O locutor informa, com voz de quem anuncia o fim do mundo , que a lentidão é de dezessete quilômetros . Dezessete ! Os ouvintes ligam, indignados, e o locutor concorda com todos . É uma terapia de grupo , só que cada um está trancado na sua cápsula de metal , com o pisca-alerta ligado e o ar-condicionado no máximo , como se fosse um spa sobre rodas.
Há também a economia do engarrafamento . Entre os carros parados circulam vendedores de água , de carregador de celular , de amendoim , de flanela; um deles me ofereceu, certa vez , um guarda-chuva num dia de sol , com o argumento de que o tempo muda . Tinha razão : quando saí da Marginal , chovia a cântaros. E há a língua das buzinas, que todo paulistano domina: um toque curto significa «obrigado »; dois , «acorda!»; um toque longo é um palavrão que a educação me impede de transcrever. A prefeitura chama tudo isso de «trânsito intenso ». Eu chamo de «momento de introspecção». Eufemismo por eufemismo, fico com o meu .
Alguém dirá que exagero . Talvez . Mas quem vive pensando em produtividade nunca entendeu a beleza de não ir a lugar nenhum . A cidade inteira ao volante , e ninguém chega: há algo de profundamente filosófico nisso . Duas horas para andar seis quilômetros não é exatamente um recorde , admito. Mas também não é nada mau para quem queria um tempo para refletir . Os gregos tinham a ágora; nós temos a Marginal .
Pronto , já brinquei o bastante . Ontem , quando finalmente cheguei em casa , minha filha já estava dormindo. Na mesa , um desenho : eu , de carro , e ela , do lado de fora, acenando. Embaixo , com a letra torta de quem tem sete anos , ela escreveu: «Mamãe no trânsito ». Fiquei um tempo olhando aquilo . Não sinto falta de estradas livres nem de velocidade . Sinto falta de tempo — do tempo que a cidade engole todos os dias , em parcelas de duas horas , sem que a gente perceba. Se o engarrafamento me ensinou alguma coisa , foi isto : a vida não está parada . Parada estou eu .