Houve um tempo em que o tédio tinha endereço certo : a sala de espera do dentista , a fila do banco , a tarde de domingo depois do almoço . Ninguém o procurava, mas todos sabiam onde encontrá-lo. Os mais velhos o chamavam de «hora morta »; as crianças , de «chatice». Hoje , ele parece ter desaparecido . Basta um minuto de espera para que a mão , quase por reflexo , busque o celular no bolso . O tédio não acabou; foi expulso .
Pode parecer estranho defender algo tão impopular. Afinal , o tédio sempre teve má fama : os pais o temem nas férias escolares, os professores o combatem em sala , os publicitários vivem de prometer o seu fim . Tal unanimidade, porém , deveria nos deixar desconfiados. Quando todos concordam em eliminar alguma coisa , convém perguntar o que se perde com ela .
Comecemos por uma distinção . Há o tédio que paralisa, aquele das tardes sem fim em que nada parece valer a pena , e há o tédio que inquieta, este mais breve e mais fértil , que nos obriga a inventar alguma coisa para fazer . O primeiro pede cuidado e , às vezes , ajuda médica ; o segundo pede apenas espaço . É deste que me ocupo aqui .
Quem já observou uma criança entediada sabe do que estou falando. Primeiro , ela reclama. Depois , se deita no chão e olha para o teto . Dez minutos mais tarde , transformou duas cadeiras e um lençol numa nave espacial . O tédio foi o combustível ; a imaginação , o motor . Tivesse ela um tablet à mão , a nave talvez nunca decolasse.
O mesmo vale para os adultos , ainda que de forma menos visível . Muitas das ideias de que mais nos orgulhamos não surgiram diante da tela , mas no chuveiro , no ônibus , numa caminhada sem destino — em momentos , enfim , em que a mente, sem nada para fazer , foi obrigada a conversar consigo mesma . Psicólogos chamam esse estado de «divagação »; os poetas , de outros nomes mais bonitos . Seja qual for o nome , o fenômeno depende de uma condição que se tornou rara : a ausência de estímulo .
Lembro-me da minha avó , em Garanhuns, que passava as tardes de domingo na varanda , olhando a rua . Quando eu , menino , lhe perguntava o que ela estava fazendo, ela respondia: «Nada . Estou pensando.» Eu achava aquilo uma perda de tempo . Hoje desconfio que era ela quem sabia usar melhor o tempo : daquela varanda saíam os conselhos , as receitas e as histórias que a família inteira ainda repete.
Não se trata de demonizar a tecnologia , que nos aproximou de pessoas queridas e pôs bibliotecas inteiras no nosso bolso . Trata-se de reconhecer que ela foi desenhada para ocupar cada fresta do nosso tempo , e que ocupa. Um aplicativo que nos deixasse entediados seria, do ponto de vista de quem o vende, um fracasso . O silêncio não dá lucro , e talvez por isso esteja em extinção .
O que proponho, portanto , é modesto : reservar pequenas ilhas de tédio no dia . Esperar o ônibus sem olhar o celular . Deixar que as crianças , nas férias , passem algumas tardes sem programação . Caminhar sem fone de ouvido . Olhar pela janela do ônibus como quem assiste a um filme sem roteiro . Desligar as notificações durante o jantar , nem que seja uma vez por semana . Nada disso exige heroísmo ; exige apenas tolerar , por alguns minutos , um desconforto que desaprendemos a suportar .
Em se tratando de hábitos , sei que é mais fácil escrever do que fazer . Eu mesmo , enquanto redigia este ensaio , interrompi o trabalho quatro vezes para conferir mensagens que podiam esperar . Mas foi numa dessas pausas forçadas — o celular sem bateria , a tomada longe demais — que me ocorreu a frase que fecha este texto , a qual ofereço ao leitor como quem devolve um objeto perdido : o tédio não é o vazio da mente; é a sala de espera das ideias .